"Aiêm" para I am. "Uórer" para water. "Rélou" para hello. Quem começa a estudar inglês no Brasil cedo ou tarde encontra a pronúncia escrita em português: listas de palavras, letras de música e frases prontas em que cada palavra inglesa vem acompanhada de uma versão "do jeito que se fala", escrita com as letras do português.
A ideia é boa. Você já sabe ler português, então lê a versão e diz a palavra. O problema é que o português não tem letras para vários sons do inglês, e as letras que ele tem não soam iguais em todo o Brasil. Esta página mostra, palavra por palavra, o que essa escrita acerta, o que ela sempre erra e como a transcrição fonética resolve as duas coisas.
Sobre as transcrições. As colunas EUA e Reino Unido vêm de um dicionário de pronúncia mantido pelo IPAtics e estão copiadas como aparecem nele. A coluna EUA marca a sílaba tônica até em palavras de uma sílaba; a coluna Reino Unido marca com ː as vogais longas e quase nunca marca a tônica. As versões "em português" são exemplos do tipo que circula em listas e vídeos, não uma forma oficial: cada autor escreve de um jeito.
O caso de "aiêm"
Comece pela própria expressão I am. Em inglês são três sons, o ditongo /aɪ/, a vogal /æ/ e a consoante /m/: I /ˈaɪ/ e am /ˈæm/. Agora leia "aiêm" como um brasileiro lê qualquer palavra portuguesa.
- "ai" está certo. É o ditongo de pai, e o /aɪ/ inglês é praticamente ele.
- "ê" está errado. O ê é uma vogal fechada, como em você. O /æ/ de am é o contrário: mais aberto que o é de pé, com o queixo bem baixo, quase um a.
- "m" no fim está errado de um jeito que não se vê. Em português, em no fim da palavra não termina em consoante: vira uma vogal nasal, como em bem e também, e os lábios nunca se fecham. Em inglês, o /m/ de am fecha os lábios. Escrever "ém" não resolve, porque o leitor lê "ém" como lê também.
Ou seja: de três sons, a escrita acerta um. E na fala corrente, I am muitas vezes vira I'm /ˈaɪm/, com uma sílaba só, coisa que "aiêm" também não mostra.
Palavra por palavra
| Exemplo | Escrita em português | EUA | Reino Unido | O que se perde |
|---|---|---|---|---|
| the | "dâ" | /ðə/ | /ðə/ | o /ð/, que não tem letra, e a vogal fraca |
| think | "tink" | /ˈθɪŋk/ | /θɪŋk/ | o /θ/ e a vogal /ɪ/ |
| water | "uórer" | /ˈwɔtɚ/ | /wɔːtə/ | acerta a batida americana; o britânico tem /t/ e não tem r |
| world | "uôrld" | /ˈwɝld/ | /wɜːld/ | a vogal /ɝ/, o r inglês e o l final |
| hello | "rélou" | /həˈloʊ/ | /hələʊ/ | o r só vale como /h/ para parte dos leitores |
| people | "pípou" | /ˈpipəl/ | /piːpəl/ | ensina o l final errado |
| good | "gud" | /ˈɡʊd/ | /ɡʊd/ | a vogal /ʊ/ e o /d/ final, que o leitor completa com "i" |
| ship | "xip" | /ˈʃɪp/ | /ʃɪp/ | a mesma escrita serve para sheep |
| sheep | "xip" | /ˈʃip/ | /ʃiːp/ | a mesma escrita serve para ship |
| bad | "béd" | /ˈbæd/ | /bæd/ | a mesma escrita serve para bed |
| bed | "béd" | /ˈbɛd/ | /bɛd/ | a mesma escrita serve para bad |
| comfortable | "cômfortâbou" | /ˈkʌmfɚtəbəl/ | /kʌmftəbəl/ | as vogais fracas e a sílaba que some |
O que essa escrita acerta
Para ser justo, ela acerta mais do que parece, e vale saber onde.
Letras mudas e número de sílabas. "Uénsdei" para Wednesday lembra que o primeiro d não se pronuncia e que a palavra tem duas sílabas: Wednesday /ˈwɛnzdi/. "Áilend" para island lembra que o s é mudo: island /ˈaɪlənd/. Para isso, uma nota rápida em português funciona.
A sílaba tônica. O acento gráfico do português marca a tônica, e "uórer" mostra que water se diz com força na primeira sílaba.
Os ditongos que o português tem. "Táim" para time, "dêi" para day, "náu" para now e "bói" para boy chegam bem perto, porque o português tem esses mesmos ditongos.
A batida americana. O r simples entre vogais, o de caro, é o mesmo som que o inglês americano usa no t de water, city e little. Por isso "uórer" e "lírou" soam mais americanos do que "uóter" e "lítou". É um dos poucos casos em que a letra do português descreve o inglês melhor do que a escrita inglesa.
O que ela sempre erra
As vogais que o português não tem. O inglês tem várias vogais que não existem em português, e a escrita em português precisa trocá-las pela mais próxima. O resultado: ship e sheep viram "xip", bad e bed viram "béd", book e food viram "búk" e "fúd" com a mesma vogal. Os pares que o inglês separa, a escrita junta. O alfabeto fonético do inglês mostra quais são essas vogais.
O th. Não há letra para /θ/ nem para /ð/. Quem escreve "tink" ensina o /t/; quem escreve "fink" ensina o /f/; quem escreve "dâ" ensina o /d/. Os três são justamente os erros que o guia de como pronunciar o th em inglês ajuda a corrigir.
O r e o h. O português não tem uma letra para o som /h/, então a escrita usa r ou rr no lugar dele: "rélou". Funciona para quem pronuncia o r de rato como um som de ar na garganta, que é a maioria dos brasileiros. Não funciona para quem pronuncia esse r vibrando a ponta da língua, como acontece em partes do Sul. E o r inglês, que é outro som, fica sem letra própria: "uôrld" não diz como fazê-lo.
Os finais. O leitor brasileiro completa com vogal o que a escrita deixa sem vogal: "gud" vira "gúdji", "náit" vira "náiti" ou "náitchi". E a escrita às vezes ensina o erro de propósito: "pípou" registra exatamente o l final que vira u, que é o que o inglês não faz. O guia dos erros de pronúncia mais comuns dos brasileiros explica por que esses finais escapam.
As sílabas fracas. O inglês reduz a vogal das sílabas átonas a um som fraco, o schwa /ə/, ou faz a sílaba sumir. Comfortable é /kʌmftəbəl/ no Reino Unido, com três sílabas. "Cômfortâbou" pede quatro sílabas cheias.
O que a escrita não marca. O sopro de ar depois do /p/, do /t/ e do /k/ no começo da sílaba tônica, por exemplo, não tem como aparecer em letra nenhuma.
Cada um escreve e lê de um jeito. Water aparece como "uóter", "uórer" ou "wórer", conforme o autor. E o mesmo "náiti" é lido com t simples em parte do Nordeste e com "tch" no Rio ou em São Paulo. Uma escrita que depende do sotaque de quem escreve e de quem lê não serve como referência.
Como a transcrição fonética resolve
A transcrição fonética, no Alfabeto Fonético Internacional (AFI), foi feita para isso. Cada símbolo representa um único som, sempre o mesmo, e o sistema tem um símbolo para cada som do inglês, inclusive os que o português não tem. Ship /ˈʃɪp/ e sheep /ˈʃip/ ficam diferentes no papel, como são diferentes na boca. The tem o seu /ð/. Am termina num /m/ que é consoante, não vogal nasal.
E não depende de sotaque. Um /h/ é um /h/ em Porto Alegre e em Recife. Os dicionários usados no mundo todo, como o Cambridge e o Oxford Learner's, trazem a transcrição de cada palavra, e com pequenas diferenças de notação usam os mesmos símbolos. Aprender a ler o AFI uma vez serve para qualquer dicionário, e serve também para o inglês americano e o britânico, que têm cada um a sua transcrição.
O custo é aprender os símbolos. Parece muito, mas boa parte deles são letras que você já lê do jeito certo, como /p/, /b/, /m/ e /s/, e os que faltam são justamente os sons que a escrita em português não consegue mostrar. A tabela completa cabe numa página.
Quando a escrita em português ainda serve
Como lembrete pessoal, ela tem lugar: uma anotação rápida de que o d de Wednesday é mudo, ou de que island não tem s, ajuda a memória. O problema é usá-la como a única referência da pronúncia de uma palavra. Use a escrita em português para lembrar o que você já ouviu, e a transcrição e o áudio para aprender o que ainda não sabe.
Por onde começar
- Aprenda os símbolos que o português não tem: as vogais /ɪ/, /æ/, /ʌ/, /ʊ/ e /ə/ e os dois th. É nesses sons que a escrita em português mais falha.
- Leia a transcrição de cada palavra nova antes de dizê-la, sempre no mesmo dicionário.
- Ouça a palavra e compare com a transcrição. A tabela fonética interativa toca uma palavra de exemplo para cada símbolo.
- Se precisar escrever um símbolo, o teclado IPA online permite copiar qualquer um deles.
Para ver a pronúncia de qualquer palavra
Digite a palavra no conversor de inglês para AFI e veja a transcrição americana ou britânica no lugar da versão em português. Se você lê em inglês no computador, o IPAtics faz isso sem você sair do texto: selecione a palavra em qualquer programa, aperte um atalho de teclado e a transcrição aparece por cima, com o áudio e uma explicação de cada som. Funciona no macOS e no Windows e tem um plano gratuito.