Na escola você aprende que o passado dos verbos regulares se faz com -ed: work, worked; play, played; start, started. Depois, lendo em voz alta, o português leva você a pronunciar o que está escrito: "uór-ked", "plêi-ed", "stár-ted". O terceiro está quase certo. Os dois primeiros, não.
A terminação se escreve sempre do mesmo jeito e se pronuncia de três jeitos: /t/ em worked, /d/ em played e uma sílaba a mais em started. Escolher entre as três não exige decorar listas. Basta olhar um único som, o último do verbo.
Sobre as transcrições. As tabelas trazem a forma americana (EUA) e a britânica (Reino Unido) de um dicionário de pronúncia mantido pelo IPAtics, copiadas como aparecem nele. A coluna EUA marca a sílaba tônica até em palavras de uma sílaba (worked /ˈwɝkt/); a coluna Reino Unido marca com ː as vogais longas e quase nunca marca a tônica. A terceira terminação aparece escrita de dois jeitos, /ɪd/ e /əd/, e a seção sobre ela explica por quê.
A regra: o último som, não a última letra
Antes de acrescentar o -ed, pergunte qual é o último som do verbo. A letra não importa. Laugh termina, na escrita, com h, mas na pronúncia termina com /f/.
| O verbo termina em | O -ed soa | Exemplo |
|---|---|---|
| um som surdo que não é /t/ | /t/ | worked /ˈwɝkt/ |
| um som sonoro que não é /d/, ou uma vogal | /d/ | played /ˈpleɪd/ |
| /t/ ou /d/ | /ɪd/ ou /əd/, uma sílaba a mais | started /ˈstɑɹtɪd/ |
Sonoro é o som que faz vibrar as pregas vocais; surdo é o que sai sem essa vibração. O português está cheio de pares assim, e você já distingue todos: pato e bato, faca e vaca, selo e zelo, chá e já. Em cada par, o primeiro som é surdo e o segundo, sonoro. As vogais são todas sonoras.
Os sons surdos que costumam fechar um verbo inglês são /p/, /k/, /f/, /s/, /ʃ/ (o ch de chave), /tʃ/ (o t de tia) e /θ/. Os outros são sonoros: /b/, /ɡ/, /v/, /ð/, /z/, /dʒ/ (o d de dia), /m/, /n/, /ŋ/, /l/ e /ɹ/.
O teste do dedo na garganta
Encoste os dedos na frente do pescoço. Diga "sssss" e passe para "zzzzz" sem parar. No s você não sente nada; no z, sente uma vibração clara. Essa vibração é a voz.
Aplique o teste ao último som do verbo. Em wash, prolongue o som final, "shhhh": nenhuma vibração, então washed termina em /t/. Em call, prolongue o l, "llllll": vibração, então called termina em /d/. As oclusivas, sons que fecham a boca e soltam o ar de uma vez, como /p/ e /b/, não podem ser prolongadas. Para elas basta lembrar que /p/ e /k/ são surdos, e /b/ e /ɡ/ são sonoros.
Por que três terminações
Pense na terminação como um /d/ na origem. Depois acontece com ela o que acontece com qualquer som colado em outro: ela se adapta ao vizinho.
Depois de um som surdo, é difícil para a garganta ligar a voz de repente no fim da palavra, e o /d/ perde a voz e vira /t/: walk vira walked /ˈwɔkt/. Depois de um som sonoro, o /d/ fica como está. E depois de /t/ ou /d/, não dá para ouvir um segundo /d/ grudado no primeiro, então entra uma vogal curta entre os dois: start, started.
O português faz exatamente a mesma coisa, só que você nunca precisou pensar nisso. O s de mesmo soa [z], porque vem antes do m, que é sonoro; o s de pasta soa [s], porque vem antes do t, que é surdo. No Rio de Janeiro os sons são outros, [ʒ] e [ʃ], mas o princípio é o mesmo: o s pega a voz do vizinho.
A consequência prática mais importante é esta: nos dois primeiros grupos, o verbo não ganha sílaba. Worked tem uma sílaba, como work, e played tem uma, como play. A sílaba extra só aparece depois de /t/ e /d/.
/ɪd/ ou /əd/?
Os dicionários britânicos escrevem a terceira terminação /ɪd/; muitos dicionários americanos escrevem /əd/. O dicionário deste site mostra as duas coisas: needed é /ˈnidəd/ na coluna americana e /niːdɪd/ na britânica, enquanto started aparece com /ɪd/ nas duas. Nos dois casos é uma vogal curta, fraca e sem acento. Diga rápido e não ponha a tônica nela.
Tabela de verbos
| Exemplo | EUA | Reino Unido | O -ed soa |
|---|---|---|---|
| worked | /ˈwɝkt/ | /wɜːkt/ | /t/ |
| stopped | /ˈstɑpt/ | /stɒpt/ | /t/ |
| looked | /ˈlʊkt/ | /lʊkt/ | /t/ |
| helped | /ˈhɛlpt/ | /hɛlpt/ | /t/ |
| laughed | /ˈlæft/ | /lɑːft/ | /t/ |
| washed | /ˈwɑʃt/ | /wɒʃt/ | /t/ |
| watched | /ˈwɑtʃt/ | /wɒtʃt/ | /t/ |
| fixed | /ˈfɪkst/ | /fɪkst/ | /t/ |
| asked | /ˈæskt/ | /ɑːskt/ | /t/ |
| finished | /ˈfɪnɪʃt/ | /fɪnɪʃt/ | /t/ |
| played | /ˈpleɪd/ | /pleɪd/ | /d/ |
| called | /ˈkɔld/ | /kɔːld/ | /d/ |
| loved | /ˈlʌvd/ | /lʌvd/ | /d/ |
| cleaned | /ˈklind/ | /kliːnd/ | /d/ |
| opened | /ˈoʊpənd/ | /əʊpənd/ | /d/ |
| changed | /ˈtʃeɪndʒd/ | /t͡ʃeɪnd͡ʒd/ | /d/ |
| lived | /ˈlɪvd/ | /ˈlɪvd/ | /d/ |
| studied | /ˈstʌdid/ | /stʌdid/ | /d/ |
| started | /ˈstɑɹtɪd/ | /stɑːtɪd/ | /ɪd/ |
| waited | /ˈweɪtɪd/ | /weɪtɪd/ | /ɪd/ |
| visited | /ˈvɪzɪtɪd/ | /vɪzɪtɪd/ | /ɪd/ |
| painted | /ˈpeɪntɪd/ | /ˈpeɪntɪd/ | /ɪd/ |
| needed | /ˈnidəd/ | /niːdɪd/ | /əd/ ou /ɪd/ |
| ended | /ˈɛndəd/ | /ɛndɪd/ | /əd/ ou /ɪd/ |
Repare que a tônica não se move: visited continua com a tônica na primeira sílaba, como visit. A terminação nunca recebe o acento.
Armadilhas da escrita
- A letra engana, o som decide. Laugh termina em /f/, então laughed termina em /t/. Fix termina em /ks/, então fixed também.
- O e mudo não conta. Love termina no som /v/, e loved /ˈlʌvd/ não ganha sílaba nenhuma. Hate termina em /t/, e por isso hated ganha.
- Consoante dobrada e y. Stop dobra o p na escrita, stopped, mas continua com um /p/ só. Study vira studied e termina em vogal, então o -ed soa /d/.
- O tch e o dge. Watch termina em /tʃ/, surdo, e change termina em /dʒ/, sonoro. Nenhum dos dois é /t/ ou /d/, então nenhum ganha sílaba.
O erro típico do brasileiro
O brasileiro costuma errar o -ed de dois jeitos, e às vezes dos dois ao mesmo tempo.
Ler o -ed como sílaba. É a pronúncia de leitura: "uór-ked", "lú-ked", "plêi-ed". Entra uma vogal antes do d, o verbo ganha uma sílaba que não tem, e quem ouve pode nem reconhecer a palavra. Fernanda Delatorre, da Universidade Federal de Santa Catarina, gravou 26 aprendizes brasileiros de nível intermediário superior lendo dez parágrafos com 91 verbos em -ed e mediu onde essa vogal a mais aparece. Ela apareceu mais depois de /tʃ/ e /dʒ/ (watched, changed); depois, em ordem decrescente, depois de oclusivas como /p/ e /k/, de fricativas como /f/ e /s/, das nasais /m/ e /n/ e do /l/; e menos que tudo depois de vogal (played). A regra da tabela resolve isso: só depois de /t/ e /d/ existe sílaba a mais.
Acrescentar uma vogal no fim. Mesmo quem já acertou a terminação tende a soltar um "i" depois dela, porque o português quase não termina palavras em consoante: worked sai "uórkiti", played sai "plêidi", e com a regra do tia e do dia o final pode virar "tchi" e "dji". É o mesmo fenômeno que transforma big em "bígui".
O problema não é só de sotaque. Uma sílaba a mais muda o ritmo da frase, e uma terminação que some ou vira outra coisa apaga a diferença entre presente e passado: I watch e I watched precisam soar diferentes.
Como corrigir
- Diga o verbo e acrescente só uma consoante. Work, depois work com um /t/ colado: worked. Nada de vogal entre os dois.
- Ligue à palavra seguinte. Se ela começa com vogal, a consoante final passa para ela: worked in soa "uórk-tin", looked at soa "lúk-tat". O português lida bem com consoante no começo de sílaba.
- Segure o fim. Antes de pausa, termine a palavra com a boca fechada na consoante, sem soltar um "i".
- Na terceira terminação, vogal curta. Em started, a última sílaba é rápida e fraca, nunca "stár-TED".
Adjetivos que fogem da regra
Alguns adjetivos terminados em -ed têm sempre a sílaba extra, mesmo depois de um som que não é /t/ nem /d/: naked /ˈneɪkəd/, wicked /ˈwɪkəd/ e crooked /ˈkɹʊkəd/, no sentido de "torto". Alguns verbos também mudam quando viram adjetivo: learned como adjetivo ("erudito") e blessed ("abençoado") ganham a sílaba, mas como verbos seguem a regra. São poucos; aprenda-os como palavras soltas.
Por onde começar
- Os verbos que você mais usa. Faça uma lista dos verbos regulares que aparecem nas suas aulas ou no seu trabalho e separe-os nos três grupos da tabela.
- O teste do dedo para cada verbo novo, até a separação ficar automática.
- Uma gravação por semana. Leia em voz alta um parágrafo no passado, grave e conte as sílabas de cada verbo ao ouvir.
- Os finais mais difíceis primeiro. Comece pelos verbos terminados em /tʃ/ e /dʒ/, como watched e changed: no estudo de Delatorre, foi depois desses sons que a vogal a mais apareceu com mais frequência.
A vogal extra no fim das palavras não aparece só no -ed; o guia dos erros de pronúncia mais comuns dos brasileiros mostra o mesmo fenômeno em big, book e club. Os símbolos /t/, /d/ e /ɪd/ estão explicados no alfabeto fonético do inglês, e as páginas do /t/ e do /d/ tocam palavras de exemplo.
Para conferir cada verbo
Digite qualquer verbo no passado no conversor de inglês para AFI e veja se a terminação é /t/, /d/ ou uma sílaba a mais. Se você lê em inglês no computador, o IPAtics faz essa consulta sem você sair do texto: selecione a palavra em qualquer programa, aperte um atalho de teclado e a transcrição aparece por cima, com o áudio. Funciona no macOS e no Windows, em inglês americano e britânico, e tem um plano gratuito.
Fontes
- Delatorre, Fernanda. "The influence of sonority on the production of words ending in -ed by Brazilian EFL learners". Ilha do Desterro 55, 2008, p. 83–109. doi.org/10.5007/2175-8026.2008n55p83. A vogal a mais antes do d do -ed e os sons que mais a provocam.
- Cristófaro Silva, Thaïs. Fonética e fonologia do português: roteiro de estudos e guia de exercícios. São Paulo: Contexto, 1999. Os sons surdos e sonoros do português e a assimilação do s.