"Bígui" no lugar de big. Um red que o nativo entende como head. Um ship que vira sheep. Se você aprende inglês no Brasil, já ouviu pelo menos um desses. Se você dá aula de inglês, ouve os três toda semana.
Nenhum deles é aleatório. Cada um é uma regra do português aplicada a uma palavra inglesa, e por isso cada um tem conserto. David Shepherd, autor do capítulo sobre falantes de português do livro Learner English, organizado por Michael Swan e Bernard Smith, começa a parte de pronúncia pelas vogais: os sistemas vocálicos das duas línguas são bem diferentes. As consoantes formam uma segunda lista, e quase tudo nela vem do que o português permite no fim de uma sílaba.
Sobre as transcrições. Cada tabela traz a forma americana (EUA) e a britânica (Reino Unido) de um dicionário de pronúncia mantido pelo IPAtics, copiadas como aparecem nele. A coluna EUA marca a sílaba tônica até em palavras de uma sílaba (big /ˈbɪɡ/) e não marca vogais longas. A coluna Reino Unido marca as longas com ː e quase nunca marca a tônica. As duas escrevem o r inglês como /ɹ/. Se os símbolos ainda são novidade, comece pelo alfabeto fonético do inglês.
A vogal a mais no fim: big, book, club
Em português, quase toda sílaba termina em vogal. Nas palavras nativas, só s, r, l e as nasais fecham sílaba, e no Brasil até essas mudam: o l final vira [w], e o m e o n só nasalizam a vogal. Uma palavra inglesa que termina em /ɡ/, /k/ ou /b/ quebra essa regra, e o português conserta do jeito que sempre consertou as palavras emprestadas: acrescenta um [i]. Foi assim que club virou clube.
| Exemplo | EUA | Reino Unido | Costuma sair como |
|---|---|---|---|
| big | /ˈbɪɡ/ | /bɪɡ/ | "bígui" |
| book | /ˈbʊk/ | /bʊk/ | "búqui" |
| club | /ˈklʌb/ | /klʌb/ | "clâbi" |
| stop | /ˈstɑp/ | /stɒp/ | "istópi" |
| dog | /ˈdɔɡ/ | /dɒɡ/ | "dógui" |
| black | /ˈblæk/ | /blæk/ | "bléqui" |
| love | /ˈlʌv/ | /lʌv/ | "lâvi" |
A vogal extra acrescenta uma sílaba, e isso pode mudar a palavra. Liked tem uma sílaba só, /ˈlaɪkt/; "láiquidi" tem três. O passado dos verbos regulares é onde isso mais aparece, e tem um guia próprio: a pronúncia do -ed em inglês.
Duas técnicas ajudam. A primeira é segurar a consoante em vez de soltá-la: feche os lábios para o /p/ ou o /b/, ou levante o fundo da língua para o /k/ ou o /ɡ/, e mantenha o fechamento por um instante, sem vogal depois. A segunda é ligar as palavras: quando a palavra seguinte começa com vogal, passe a consoante para ela. Em big apple, o /ɡ/ passa para a palavra seguinte, "bi-gapple"; em stop it, o /p/ faz o mesmo, "sto-pit". A consoante passa a abrir uma sílaba, coisa que o português faz sem esforço.
A mesma regra age no começo da palavra. O português nunca começa uma palavra com s mais consoante (escreve escola, estudante, Espanha), e por isso school e Spain ganham uma vogal na frente: "iscúl", "ispéin". Comece com um s longo, "sssss-kul", e encurte até a vogal sumir: school /ˈskul/, Spain /ˈspeɪn/.
t e d antes de i: tip e chip
Na maior parte do Brasil, t e d antes do som [i] viram os sons que o inglês escreve ch e j: tia começa como cheese, e dia como jeans. O inglês não faz isso, então um tip brasileiro pode soar como chip, e deep como jeep.
| Exemplo | EUA | Reino Unido | Começa com |
|---|---|---|---|
| tip | /ˈtɪp/ | /tɪp/ | /t/ |
| chip | /ˈtʃɪp/ | /t͡ʃɪp/ | /tʃ/ |
| deep | /ˈdip/ | /diːp/ | /d/ |
| jeep | /ˈdʒip/ | /d͡ʒiːp/ | /dʒ/ |
| did | /ˈdɪd/ | /dɪd/ | /d/ |
| city | /ˈsɪti/ | /sɪti/ | /t/ no meio |
| difficult | /ˈdɪfəkəlt/ | /dɪfɪkəlt/ | /d/ |
A coluna britânica escreve /t͡ʃ/ e /d͡ʒ/ com um arco; são os mesmos sons de /tʃ/ e /dʒ/.
O mesmo acontece no fim da palavra, somado à vogal extra: night sai "náitchi", e good sai "gúdji". Melissa Bettoni-Techio e Rosana Koerich gravaram 30 aprendizes brasileiros lendo frases em inglês com palavras terminadas em t e d, e as mesmas pessoas lendo frases em português. Onde não havia palatalização no português do aprendiz, também não houve no inglês dele. Se você diz tia com um t simples, como em partes do Nordeste e do Sul, esta seção não é para você.
O conserto é soltar a língua de forma limpa. Encoste a ponta na gengiva logo atrás dos dentes de cima e solte direto na vogal, sem deixar o ar chiar no caminho. Diga ta, ta, ta e depois tip, com o mesmo estalo limpo.
r e h: red e head
O r de rato e de carro é feito, na maior parte do Brasil, no fundo da boca ou na garganta: um [h], um [x] ou algo entre os dois. Usado no lugar do r inglês, ele soa como /h/ para um nativo, e red vira head:
| Exemplo | EUA | Reino Unido | Som |
|---|---|---|---|
| red | /ˈɹɛd/ | /ɹɛd/ | /ɹ/ |
| head | /ˈhɛd/ | /hɛd/ | /h/ |
| rate | /ˈɹeɪt/ | /ɹeɪt/ | /ɹ/ |
| hate | /ˈheɪt/ | /heɪt/ | /h/ |
| right | /ˈɹaɪt/ | /ɹaɪt/ | /ɹ/ |
| height | /ˈhaɪt/ | /haɪt/ | /h/ |
| ray | /ˈɹeɪ/ | /ɹeɪ/ | /ɹ/ |
| hay | /ˈheɪ/ | /heɪ/ | /h/ |
O português do Brasil oferece três sons úteis aqui.
- O h inglês é o seu r. A maioria dos brasileiros já diz [h] ou algo parecido em carro. O problema não é o som, é onde ele entra. Use-o no h inglês, que você aprendeu a ignorar porque em português ele é mudo: hotel /hoʊˈtɛl/ começa com /h/ em inglês, assim como hi, house e happy. E nunca use esse som no r inglês.
- O r inglês pode já estar no seu português. No interior de São Paulo e em regiões vizinhas, o r de porta é parecido com o inglês: a língua se curva sem encostar em nada. Se esse é o seu sotaque, use esse r também no começo das palavras inglesas. Se não é, diga um "iiiii" longo e vá curvando a ponta da língua para trás, sem deixar que ela encoste.
- O t americano de water é o seu r de caro. No inglês americano, o t entre vogais, em city, water e better, costuma virar uma batida rápida da língua, [ɾ]: o mesmo som do r simples de caro e para. A transcrição mostra /t/, mas a pronúncia do dia a dia é essa. A página da batida americana tem áudio.
A página do r inglês traz mais palavras para treinar.
m, n e ng no fim
O português escreve m e n no fim de bom, sim e tem, mas não pronuncia esses sons como consoantes: a vogal fica nasal, e os lábios e a língua não fecham. Em inglês, o fechamento é a palavra. Sum, sun e sung só se diferenciam pelo lugar onde a boca fecha no fim; com vogal nasal no lugar, as três soam iguais.
| Exemplo | EUA | Reino Unido | A boca fecha com |
|---|---|---|---|
| sum | /ˈsʌm/ | /sʌm/ | os lábios |
| sun | /ˈsʌn/ | /sʌn/ | a ponta da língua |
| sung | /ˈsʌŋ/ | /sʌŋ/ | o fundo da língua |
| Kim | /ˈkɪm/ | /kɪm/ | os lábios |
| kin | /ˈkɪn/ | /kɪn/ | a ponta da língua |
| king | /ˈkɪŋ/ | /kɪŋ/ | o fundo da língua |
Diga cada palavra devagar e termine com a consoante, segurando-a um instante: lábios bem fechados para o /m/, ponta da língua na gengiva atrás dos dentes para o /n/, fundo da língua levantado para o /ŋ/. E diga a vogal antes dela sem nasalizar. A página do /ŋ/ tem áudio.
l no fim: milk, feel, people
Na maior parte do Brasil, o l no fim de sílaba vira [w]: Brasil termina como viu. Levado para o inglês, milk vira "míuk" e feel vira "fíu". O inglês mantém a ponta da língua encostada na gengiva, com o fundo da língua levantado.
| Exemplo | EUA | Reino Unido |
|---|---|---|
| milk | /ˈmɪlk/ | /mɪlk/ |
| feel | /ˈfil/ | /fiːl/ |
| well | /ˈwɛl/ | /wɛl/ |
| people | /ˈpipəl/ | /piːpəl/ |
| help | /ˈhɛlp/ | /hɛlp/ |
| cold | /ˈkoʊld/ | /kəʊld/ |
| called | /ˈkɔld/ | /kɔːld/ |
O teste é a ponta da língua: no fim de feel, ela tem que estar encostada, não solta. O último par tem uma segunda armadilha: cold e called também diferem na vogal, e o o brasileiro pode confundir as duas.
Vogais: curtas e longas, abertas e fechadas
A observação de Shepherd sobre os sistemas vocálicos aparece com mais clareza em dois lugares.
| Exemplo | EUA | Reino Unido | A vogal |
|---|---|---|---|
| ship | /ˈʃɪp/ | /ʃɪp/ | curta, relaxada |
| sheep | /ˈʃip/ | /ʃiːp/ | longa, tensa |
| fit | /ˈfɪt/ | /fɪt/ | curta, relaxada |
| feet | /ˈfit/ | /fiːt/ | longa, tensa |
| full | /ˈfʊl/ | /fʊl/ | curta, relaxada |
| fool | /ˈful/ | /fuːl/ | longa, tensa |
| look | /ˈlʊk/ | /lʊk/ | curta, relaxada |
| Luke | /ˈluk/ | /luːk/ | longa, tensa |
O i do português é parecido com a vogal de sheep, e por isso ship escorrega para ela. Para o /ɪ/, relaxe a língua e abaixe um pouco, a meio caminho do ê, e mantenha a vogal curta. Faça o mesmo com o /ʊ/, saindo do u em direção ao ô.
A segunda armadilha são as vogais abertas da frente. O /æ/ inglês é mais aberto que o é do português, e o /ɛ/ fica perto do é. O brasileiro tende a usar o mesmo é para os dois, e bad e bed viram a mesma palavra:
| Exemplo | EUA | Reino Unido | A vogal |
|---|---|---|---|
| bad | /ˈbæd/ | /bæd/ | /æ/, queixo bem baixo |
| bed | /ˈbɛd/ | /bɛd/ | /ɛ/, queixo a meio caminho |
| man | /ˈmæn/ | /mæn/ | /æ/, queixo bem baixo |
| men | /ˈmɛn/ | /mɛn/ | /ɛ/, queixo a meio caminho |
| sat | /ˈsæt/ | /sæt/ | /æ/, queixo bem baixo |
| set | /ˈsɛt/ | /sɛt/ | /ɛ/, queixo a meio caminho |
Ponha um dedo no queixo: ele tem que descer bem mais em bad do que em bed. A nossa lista de pares mínimos do inglês, em inglês, tem mais pares para cada contraste.
th
O português não tem nenhum dos dois th do inglês, e o brasileiro preenche o buraco de três jeitos: com /t/ e /d/, com /f/ e /v/ ou com /s/ e /z/. Thick pode sair "tick", "fick" ou "sick".
| Exemplo | EUA | Reino Unido | Som |
|---|---|---|---|
| thick | /ˈθɪk/ | /θɪk/ | /θ/ |
| sick | /ˈsɪk/ | /sɪk/ | /s/ |
| thought | /ˈθɔt/ | /θɔːt/ | /θ/ |
| taught | /ˈtɔt/ | /tɔːt/ | /t/ |
| then | /ˈðɛn/ | /ðɛn/ | /ð/ |
| den | /ˈdɛn/ | /dɛn/ | /d/ |
| though | /ˈðoʊ/ | /ðəʊ/ | /ð/ |
| dough | /ˈdoʊ/ | /dəʊ/ | /d/ |
Ponha a ponta da língua de leve entre os dentes e sopre: isso é o /θ/. Ligue a voz e você tem o /ð/. O guia de como pronunciar o th em inglês tem as regras para saber qual dos dois usar e exercícios.
Sílaba tônica e schwa
O português também tem sílaba tônica, então a ideia é familiar. O problema são os cognatos: a escrita lembra uma palavra portuguesa, e a sílaba tônica do português vem junto.
| Exemplo | EUA | Reino Unido | Em português |
|---|---|---|---|
| animal | /ˈænəməl/ | /ænɪməl/ | animal: a-ni-MAL |
| capital | /ˈkæpətəl/ | /kæpɪtəl/ | capital: ca-pi-TAL |
| problem | /ˈpɹɑbləm/ | /pɹɒbləm/ | problema: pro-BLE-ma |
| family | /ˈfæməli/ | /fæmli/ | família: fa-MÍ-lia |
| chocolate | /ˈtʃɔklət/ | /t͡ʃɒklət/ | chocolate: cho-co-LA-te |
| interesting | /ˈɪntɹəstɪŋ/ | /ɪntɹəstɪŋ/ | interessante: in-te-res-SAN-te |
| comfortable | /ˈkʌmfɚtəbəl/ | /kʌmftəbəl/ | confortável: con-for-TÁ-vel |
| vegetable | /ˈvɛdʒtəbəl/ | /vɛd͡ʒtəbəl/ | vegetal: ve-ge-TAL |
A coluna britânica não marca a tônica, mas nas oito palavras ela cai na primeira sílaba, nos dois sotaques. Repare também nas vogais: as átonas encolhem para o schwa /ə/ ou somem, e por isso chocolate e vegetable perdem uma sílaba que a escrita ainda mostra. O português do Brasil reduz bem menos vogais do que o inglês, e vogais cheias no lugar do schwa estão entre os erros típicos de quem tem o português como língua materna. O guia do schwa, em inglês, explica essa vogal reduzida.
O que treinar primeiro
A ordem que mais rende, para quem estuda sozinho e para quem dá aula, é esta, um tema por semana:
- Finais e a vogal extra. Elas acrescentam sílabas a palavras do dia a dia, inclusive à maioria dos passados regulares. Diga cada palavra isolada e depois ligada a uma palavra que comece com vogal (stop it, big apple).
- As vogais: ship e sheep, depois bad e bed com o dedo no queixo. Comece pela escuta: quem não ouve a diferença não consegue treiná-la.
- r, h e os finais m e n. O [h] você já tem; a tarefa é tirá-lo das palavras com r e levá-lo para as palavras com h. Depois, a série sum, sun, sung.
- Tônica, schwa e th. Confira a tônica de cada cognato que você usa e treine os pares do th.
Em sala, cada item vira um jogo de escuta em dupla: um aluno diz uma palavra de um par, e o outro aponta qual foi. Sozinho, grave-se toda semana e ouça: é difícil perceber o próprio sotaque enquanto se fala, e numa gravação fica bem mais fácil.
Para conferir cada palavra
Digite uma palavra no conversor de inglês para AFI e confira a vogal, o final ou a sílaba tônica antes de dizê-la. Se você lê em inglês no computador, o IPAtics faz isso sem você sair do texto: selecione a palavra em qualquer programa, aperte um atalho de teclado e a transcrição aparece por cima, com o áudio. Funciona no macOS e no Windows, em inglês americano e britânico, e tem um plano gratuito. A comparação entre o AFI americano e o britânico, em inglês, ajuda a escolher um modelo.
Fontes
- Shepherd, David. "Portuguese speakers". Em Michael Swan e Bernard Smith (orgs.), Learner English: A Teacher's Guide to Interference and Other Problems, 2ª ed. Cambridge University Press, 2001, p. 113–128. doi.org/10.1017/CBO9780511667121.009. A diferença entre os sistemas vocálicos.
- Bettoni-Techio, Melissa; Koerich, Rosana Denise. "Palatalization in Brazilian Portuguese/English interphonology". Revista Virtual de Estudos da Linguagem (ReVEL) 4 (7), 2006. lingbuzz/000503. O t e o d finais de 30 aprendizes brasileiros.
- Cristófaro Silva, Thaïs. Fonética e fonologia do português: roteiro de estudos e guia de exercícios. São Paulo: Contexto, 1999. As vogais do português do Brasil, o t e o d antes de [i], o l final como [w] e as pronúncias do r.
- Wikipedia, "Non-native pronunciations of English", seção sobre o português: ship e sheep, /æ/ e /ɛ/, as três trocas do th, o r ouvido como h, as nasais finais e cold e called.
- Pronunciation Studio, "Portuguese Speakers' English Pronunciation Errors": a lista de uma escola de Londres, que inclui o h omitido e as vogais cheias no lugar do schwa.
- Wikipedia, "Portuguese phonology": as consoantes que podem fechar sílaba, o [i] acrescentado em palavras emprestadas e a palatalização do t e do d.